sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Haikai.

Haikai.
Eu êxito, finjo que não. Sou dominado, só que não.
Morro todo dia, e todo dia nasço.
Sou livre na medida em que me deixam,
Essa coleira não é minha! É sua! Pense!

Francisco Maia. 

III Séculos de Vida.


III Séculos de Vida.

Vim de África, Ogum, Oya, morri no novo mundo,
Mudei de alma, e orei para São Jorge e Santa Bárbara,
Deixei o meu mundo, dancei no terreiro, chorei na senzala.
E doei sangue no pelourinho, soei chibatadas.

Corri um pedacinho de terra, parei em Palmares,
Lá fomos todos iguais, morri por Zumbi e Dandara. Morri pela liberdade!
Caminhei em alma crua nos sertões, pés machucados.
Extraí ouro nas feridas abertas no veio da terra, feri minhas mãos.
Lombo, ardeu, ardeu, fui para Piratininga.

Colhi café, raspei terra, andei, andei, era tudo do sinhozinho,
Apanhei de vara de marmelo, morri novamente, sofri, doeu, sou negro.

Meus olhos abriram, renasci. O soluço, o choro, a morte não tinha me levado,
A vida veio, eu nego com a liberdade Áurea, dois artigos e nenhuma justiça social.
Subi o morro, correram com a gente dos cortiços, não me deram emprego, não sei ler.

300 anos de escravidão, muitas mortes e muitos nascimentos, muita dor.
130 anos do fim da escravidão, não sinto a liberdade, vivo sem muitos direitos,
Os quais são privados, ainda são reclamados, ainda luto por liberdade, justiça e igualdade.

O meu grito não é mais um gemido amordaçado, o meu grito é a revolta.
O meu medo não é da morte, o meu medo é da injustiça.
Não nasci no novo mundo, eu renasci no Brasil.

Eu cresci reencarnando, hoje sou forte, sou negro, sou brasileiro.
Não vim porque quis, mas estou aqui para ficar.
Me respeita, pois aqui também é meu lar.


Francisco Maia.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

Despertado.

Despertado.


O poder é do povo, só que o povo não sabe disso!
Pena que o povo ficou feliz e não triste em ser divido!
O povo tem parcelas para pagar, tem carro novo, casa!
Pena que o povo não se acha povo.

Sinto falta do povo, dele decidir sem receber!
Sei que o povo está alinhado, não é sua vontade.
Sinto que o povo, cresceu, achou e perdeu.
Sei que meu povo descaminhou-se por sentir que não é do povo.

Meu povo está ébrio! Encantado com a lua cheia.
 Adormecido com o remédio instantâneo da solução,
Soluçando com o pão seco e o vinho barato da cesta de natal.

Ah! Quando o meu povo perceber que não é médio,
Oh! Quando o meu povo perceber que é grande.
Olha você! Vamos te derrubar, não vai demorar.

Francisco Maia.



quarta-feira, 14 de junho de 2017

Poética.

Poética.

Pensei que a poesia tinha morrido.
Achei que não tinha mais como!
Poemas viraram dialética e dialética poesia.
Morri, e fui para outro lado, cordel cantei.

Sambei na minha lápide e o espirito não deixava o corpo,
Alma cinza por desencanar em maniqueísmo.
Vermelho ou azul, a morte não tem cor!
Interesses antagônicos que separa o morto pobre.

Apodreceu o sangue vermelho e enrugou a veia azul!
O verme pinicou o osso amarelado que logo é pó,
Tremulou a chama da vela, deixando o fumo na gaveta branca.

A lua alva iluminava a minha alma perdida,
Balbucie um samba, entoei uma poesia. Não morreu comigo!
Ela apenas nasceu no meu simples existencialismo.

Francisco Maia.







domingo, 14 de maio de 2017

Transformação

Transformação

Os meus moinhos voaram,
Partiram desse solo para Holanda.
Foram de açúcar, negra sua cor,
Saíram de África, Oyá, rápido, vento, pensamento.

Os meus moinhos era de Pança,
Quixote rendido descansa
Com o doce que saboreou de América,
Criolo produziu sua musica açucarada.

Era assim um pão d’Ouro
Brotado de um sangue rubro,
O azul era a regra mestiça.

Mestiço eram os excluídos de Europa,
Mestiços são os novos moradores de América,
Da América não ficou nada para Ubiratã.

Francisco Maia.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Só o que te sobrou.

Só o que te sobrou.

Quando se nasce pobre, te sobra ser forte.
Quando se nasce negro, te sobrou ser forte.
Quando não te sobra o pão, engana-se a fome.
Quando não te sobra a água, engole-se a saliva.

Quando não se pode ir ao centro, te sobra a periferia.
Quando não se pode ir a praia, te sobra o morro.
Quando se vive esquecido, te sobra a sombra.
Quando se vive acuado, te sobra a raiva.

Do Norte ao Sul falta-te o sopro de vida.
Chora a criança faminta, das tuas lágrimas
 A única gota de água na terra.

Engana-se com a política;
Ainda desce o morro de chinelo para o asfalto,
Sem pisar descalço na areia.

Sorri para o clarão, no escuro,
Do estouro, sobra-te a reza,
A flor e a vela;
Cova e um número de indigente.

Francisco Maia.

O Mendigo de Copacabana.

O Mendigo de Copacabana.

            Doeu, doeu um pouco, doeu mais ver o meu corpo esmagado no asfalto. Foi um descuido e o caminhão de lixo me pegou, que ironia,  até na morte estou do lado do que a sociedade sempre me chamou, desencarnei, olhei a matéria pela última vez, um monte de carne moída no asfalto negro, calor de 40° do Rio de Janeiro, fritou minha carne.
            Vaguei por horas nas ruas que costumava ficar, olhei os companheiros de batalha, logo sumi, saí desse mundo, não sei explicar para onde fui. Olhei uma luz, e vi verde, água, cachoeiras, pedras e um muro alto sem portas, não sabia onde estava e muito menos por qual motivo estava lá. Tive uma vida, tida, por muitos como perdido, miserável, um bicho, sujeira para muitos que passaram por perto de mim, um cara fedido, o verdadeiro fracassado na existência social contemporânea. Mas, no fim, eu estou na muralha, fui acolhido, levado e recebi todos os cuidados. Nunca na minha breve existência fui tão bem acolhido, tive cama, comida, roupa limpa e o mais importante, palavras de carinho. Entendi que tinha morrido, e que as minhas mazelas tinham-se acabado, o mais difícil era me curar dos excessos da carne que tive que cometer para suportar a rotina de rua, o frio, o calor, a fome e a dor do olhar de quem passava e me humilhava com palavras e piedades compradas com uma moeda de 10 centavos.
            Não sou nenhum santo, mas também nenhum pecador, tive que viver a forma que escolhi, motivos, vários, desculpa é que sempre me deixaram lá, não me arrependo, faria tudo de novo. Hoje me encontro em um lugar que não recebo olhar de nojo, aliás, as pessoas que me olhavam desse jeito eu não vejo aqui, perguntei por curiosidade, mas me informaram que eles não passaram por onde deveria, não perguntei mais, fiquei calado. Vai que eles me coloquem para fora né?
Minha existência mundana começa em uma família tradicional, pai, mãe e irmãos, fui o primeiro a nascer, encarnar, vai lá. Na primeira infância, sei lá se posso usar o que aprendi? Lembro-me da rua de casa, da minha casa, do meu quarto, das palmeiras da praia na frente da rua, cresci, estudei nos melhores colégios da região, região essa que não cabe mencionar. Filho de militar sempre tive que estar postado, firme, duro. Via a fraqueza dos outros amigos como fracasso. Fui forçado a olhar os mendigos como pecaminosos, perdidos, preguiçosos que eu como filho de família bem sucedida tinha que trabalhar para sustentar, isso não era justo! O governo tinha que dar um jeito, eu ouvia que pobre não deveria ter filhos, que não deveria nascer que deveria ser extirpado pelo governo, pois trazia sujeira e doenças.
Cresci com esses conceitos remoendo em minha cabeça, não entendia e na verdade nunca entendi qual seria a finalidade de uns ter mais e outros menos, qual a finalidade de uns transgredir a lei e outros sem descumpri-la seria espancado ou preso ou na menor da hipótese enxotado do local que estava. Bem, fui para faculdade, meu pai como militar me queria em um curso como medicina ou direito, podia até ser engenharia. Entrei na Universidade de São Paulo no curso de Engenharia Mecânica, não era exatamente o que ele queria, mas aceitou, ao menos eu não entrei nos cursos da FFLCH. Cursei um semestre de engenharia, não me adaptei, e tranquei a matricula, mas fiquei com medo do meu pai. Fiquei morando em São Paulo em um apartamento que ele pagava, arrumei um emprego no período que ele achava que estava na faculdade. No final do ano ele veio na faculdade e descobriu que eu não cursava, tinha trancado. Foi aí que ele veio no meu apartamento junto com a minha mãe e me humilhou, falou que eu era um fraco, que eu nunca ia ser ninguém na vida, que eu estava desperdiçando a minha juventude, minha mãe só chorava, não falava nada, me olhava com olhos de desgosto. Ele não ia mais pagar o meu aluguel e que eu me virasse, ele antes de sair cuspiu no chão e olhando para frente me falou que não era mais seu filho. Foi quando entendi que na realidade que estava sozinho nesse mundo.  Chorei, me culpei, andei pela rua São João sem saber onde parar, embriaguei chorei mais um pouco. Quando amanheceu, eu estava dormindo em um canto,  tinha mais pessoas lá, todos cumplices de um destino igual.

Voltei para o apartamento para pegar uma muda de roupa e o livro de Baudelaire e Florbela, larguei tudo, tudo mesmo, não voltaria mais naquele lugar,  meus pais estiveram lá, recolheram tudo e levaram para a baixada.  Eu tinha pouco dinheiro, então comprei uma passagem para o Rio de Janeiro, cheguei lá e não arrumei emprego,  comecei a andar na orla,  comecei a perceber que os mendigos eram mais generosos que as pessoas que passavam em minha frente. Logo eu já estava enturmado com eles, comecei a dormir nas marquises que eles descansavam, me aceitaram sem pedir currículo, sem querer saber o meu sobrenome, só me aceitaram. Comecei aí a colaborar, comecei a partir daí a perceber a miséria humana, olhar o que me era proibido, tido como lixo. Eu fazia parte desse lixo,  gostei, fui livre, anarquista, sem poder para me prender. Comecei a ajudar os outros, dividir, respeitar, olhar, sentir e amar.

Os olhos preconceituosos não me afetavam, esses mesmo olhos que fui ensinado a ter toda a minha vida, os olhos que me recusei em ter e que me baniram da minha família. Encontrei outra família, uma que me acolheu sem querer saber o que eu quero ser, pois para eles só existe uma forma de ser, é viver para ti e para os seus, caridade, quanto mais pobre, mais caridosas são as pessoas, passei os meus dias de vida em Copacabana, ajudando e sendo ajudado pelos meus camaradas de luta. Vi sim o meu corpo despedaçado, mas também não vi o meu pai que falecera anos antes que o meu desencarne.

 

Francisco Maia.