terça-feira, 1 de maio de 2018

Poema.


Poema,
Corro, mundo, corri. Medo, medo.
Corri sozinho, te encontrei, foi um segundo.
Te encontrei, não era minha, não era teu,
Nunca fui. Perdido no soluço.
Meu amor, percebi que os teus são os meus.

Meu amor, meu amor.
O meu mundo é o seu, teu é meu soluço,
Sou gago, sou tremulo, sou medo, sou teu.
Francisco Maia.

O Cidadão de Bem.


Crônicas de um Morto.
O Cidadão de Bem.
Existe um vazio, existe um mundo paralelo, eu nem usei drogas, bem o que seria droga? Hoje penso... Droga é viver. Por Deus que não me encontrou, por Deus que me deixou, por um Deus humano, um de carne e osso. Não tenho mais ossos, fui devorado e assisti, merda (blasfêmia). Merda. Sou merda de vermes, fui comido, devorado, senti dor, rezei, ninguém apareceu, apodreci, fedi. Cara! Merda. Achei a minha vida toda que era um cidadão de bem.
Cresci em uma família religiosa, senti a religiosidade, eu acreditei que tinha que fazer igual o meu pai, pensei que seria amado, seria louvado, alcançaria os céus. Me fodi todo, não tenho mais pudor em falar palavrões, estou com pessoas, almas que praguejam toda hora, gemem, sente dor, isso é de enlouquecer. Parem. Eu grito.
Sempre segui as regras que me beneficiavam, eu era moralmente correto, eu dava conselhos, eu orientava casais, era uma pessoa que trabalhava, classe média, eu não tinha a minha indústria, mas trabalhava bastante, e o meu patrão gostava, na verdade era o meu gerente, nunca vi o dono da fábrica. Eu sempre fui competente, e recebia um salário bom, eu era classe média. Pena que quando percebi que empregado não é classe média era tarde de mais, fui mandado embora e os meus rendimentos sumiram, passei necessidades, mas não me importei, sou fiel a Deus, ele me proverá, bati as minhas panelas e  o emprego voltou a bater em minha porta, lutei contra a corrupção do meu país. Tinha esse falso orgulho, seria eu um cidadão de bem naquele momento.
The Doors.
Deixei o meu caixão, foi muito duro abandonar o meu corpo podre, deixei o que eu era em vida. Parti, andei, tudo era nebuloso, escuro, batia a fome, não tinha comida nem água, via pessoas gritando, um horror. Eu  não era daquele lugar, por qual motivo estava ali? Vi uma porta e nela tinha uns sentinelas, soldados, fui questionar, por qual motivo eu estava nessa penúria? Eles riram da minha cara, e me acorrentaram. Fui levado arrastado para dentro de uma cidade, essa cidade parecia um antro de perdição, tinha tortura por toda parte e prostituição, tinha dor e gemidos, uns tão constante que atordoava a própria alma.
Andei por horas, me levaram por toda a cidade, servi de chacota para todos. Me olharam, riram, jogaram merda, (fezes humana), aliás a cidade toda fedia a enxofre e dejetos humanos. Deixaram-me na frente de um trono, uma cadeira dourada que tinha umas tochas acesas do lado, fiquei ali de joelhos, o meu corpo estava todo ralado, me puxaram pelo pescoço quando não consegui andar, me arrastaram por todas as ruas, me senti humilhado por pessoas que eu acho inferior, bandidos, prostitutas, malandros e favelados.
Passei a noite toda jogado na frente daquele trono, não tinha sol, não tinha hora, o tempo não passa aqui, o sofrimento é árduo, mas na minha cabeça já tinha passado uma noite toda, apesar de não ver o sol rompendo as trevas da noite, eu estava em trevas e não entendia o motivo, cara! Eu sou um cidadão de bem. Os gritos de desespero e os gemidos aquietaram, o silêncio tomou conta do ambiente, tudo quieto, uma quietude ensurdecedor, corroeu a minha alma esse silêncio. Rompeu a escuridão o estrondo de uma gargalhada, o silêncio dos gemidos e gritos ainda continuou, parecia que o medo tinha cheiro, e todos ficaram trêmulos diante da gargalhada. O trovão veio em forma de berro. Quietos, sou o seu Senhor e vou falar agora.
- quem é esse trapo que esta na frente do meu trono?
E uma mulher falou.
- é o cidadão de bem.
As gargalhadas entoaram, era uma musica horrível, risadas e vaias vindos de todos os lados.
O grito veio mais uma vez. – silêncio. A voz afirmou.
                E me foi permitido falar. Eu questionei o motivo de estar nessa miséria, sendo que eu sou um cidadão de bem. É um teste pela minha fé? Eu quero falar com o Cristo ou com quem manda nisso, não tem graça fazer isso! É uma brincadeira de mau gosto, eu sempre fui correto, sempre fiz tudo conforme a moral e a ética dos escritos. Eu sou um discípulo.
E o homem vestindo vermelho, com aparência demoníaca me interrompeu com um risada e logo com uma palavra. – Calado seu puto. 
- quero ver os autos desse pau no cú.
Foi quando uma figura que não parecia homem e nem mulher levou para ele um livro grande. A figura demoníaca me olhou e balbuciou. – Eu que mando aqui, tive várias vidas, e preferi viver nessa cidade, eu sou absoluto, e você maninho esta aqui, não por acaso, de cidadão de bem você não tem nada, tu deve e sou eu que vou cobrar.
A morte meu caro é apenas um estágio, eu sei pelos autos que você traiu a sua esposa, você andou com prostitutas, você teve casos com transexuais, você sonegou imposto, você dirigiu com o celular no ouvido, você pegou dinheiro da carteira de outra pessoa, você indagava sobre a meritocracia falando que pobre deveria morrer, você furava fila e ademais falava para sua esposa estufar a barriga para passar na fila de gestante, você pregava a palavra e não cumpria dentro da sua própria casa, você subornava policiais para não ser multado, você cobrava o dízimo e não repassava um centavo para os necessitados, você era vaidoso, comprava terno de grife e carro do ano para se sentir melhor que os outros da sua comunidade, você traia todos por dinheiro, pregava uma palavra que tu não cumpria. Era um cidadão que de bem não tem nada. Você é nosso agora. O divorcio não era algo que tu pregava, mas agora eu te dou, na verdade eu dou para a sua esposa, ela tá livre de você, ela vai para outro lugar, não vai mais apanhar, ser traída e não vai pegar doenças de ti, ela vai ser feliz  com o fim da vida dela, aliás ela já está sendo feliz. Você me pertence, pertence a esse mundo, a dor, que tu sentes não é nada após a minha sentença, esse homem vestido de mulher não esta aqui por ele ser homossexual e sim por ele odiar. Os Homossexuais que realmente são cidadãos de bem não vem prá cá. Eu nunca vi um. Todos que estão aqui é porque andaram com um e depois apedrejaram ele por casa da sua hipocrisia.
O cidadão de bem é aquele que realmente é empático, sente a dor do outro como se fosse a sua própria dor, é o ético realmente, não faz nada para o próprio benefícios amiguinho, agora tu fala em sua defesa, aqui bandido bom não é o morto, e sim quem morreu, achando que era bom. – Gargalhadas surgiram nesse momento.
Eu fui me defender, não tinha advogado, nem um direito, nada. Não tinha direito a um defensor, não tinha direito a vida, tudo era censurado, nem habeas corpus, meu, eu estava em um tribunal de exceção, e os direitos humanos? Era um absolutismo total, um pesadelo de repressão, eu, um cidadão sem os meus direitos. Não é certo.
Em minha defesa pedi perdão a cada um dos pecados que ele afirmava, e todos aceitaram, o perdão é divino e se a minha esposa aceitou eu estou redimido, se o fiel acatou o que fiz com o dinheiro do seu dízimo era por motivo maior, se eu fui um trabalhador que usou sua panela errado foi por motivos sociais. Riram mais uma vez, eu não tinha ninguém para me defender. Fui humilhado mais uma vez. E o cara que estava sentado no trono chamou alguém, fiquei na espreita, esperei que me defendesse.
- Moça do cabelo, ele gritou.
A mulher entrou, logo veio discursando, entrou com uma história triste, que ela traía o marido por status sociais, que fazia caridade pra aparentar uma pessoa boa, que dormia sem remorso, mas que fazia tudo para o bem comum, que ela fazia tudo o que fez para a sociedade que vivia, ela não se achava culpada e que tinha que falar com Cristo. Logo percebi que todos que se dizia cidadão de bem estavam sendo julgado ali e que realmente não éramos tão do bem assim. A sentença dela foi logo posta, e ela retirada. Não sei o interesse por mim, mas fiquei ali. Ele me olhou, fitou bem nos meus olhos. – Você não se arrepende do que fez, você é interessante, é você que diz que a morte com desespero é a melhor punição, por isso o meu julgamento vai ser severo, aquele que prega a severidade tem que ser tratado igual.
Levem ele daqui, coloquem ele na roda da lembrança, a punição dele é ver a sua vida todos os dias, apodrecer sentindo que a morte não era a libertação, mas sim a forma correta dele perceber que, ser um ser de bem é sentir a dor do outro, ele vai sentir dor todos os dias, não vão ser os vermes que vão dar essa dor, mas a consciência dele que vai lhe proporcionar a dor de não ter feito, de ter julgado, de ser racista, de ser homofóbico, de ser machista, de ser um ser podre, vazio. Adore essa gente aqui, eles são o que você sempre gostou! Ele vai passar muito tempo conosco, ele não se arrependeu de nada, é uma alma minha. Adoro! Tudo é uma aprendizagem, nada é por acaso.
Francisco Maia.









domingo, 12 de novembro de 2017

O Torturador.

O Torturador.
Parte I

Depois de tanto ter matado, eu não sinto mais a dor. O sorriso escapa quando vejo alguém implorando. Vejo poder, sei o que fiz e o que gosto de fazer, matar, tirar a vida, olhar o outro de joelhos e gargalhar quando ele me implora pela própria vida. Vivi em um orgulho tremendo, dinheiro, poder, mulheres. Vivi a minha vida à custa da morte do outro. Morte, morte, lindo nome para um filho.
Sinto a minha cabeça doendo. Pulsa!  Esse pulsar não para de doer, o sangue me cega à visão, não encontro mais o meu caminho, não tenho caminho, olho a escuridão, olho o vermelho do sangue que não para de jorrar, olho meus pés e vejo nada além de lama. Uma lama espeça, grudento, vejo vultos, escuto gritos. Olho para o céu, o céu não esta mais lá, é escuro, não tem lua, nem sol, não tem 24 horas.
Procuro a minha pistola 9mm, não esta na minha cintura, tento correr não consigo, os pés estão presos na lama, vejo pessoas se aproximando, elas gritam o meu nome, parece que me conhece e me odeiam. Véio, tô na merda.  Fui alcançado e brutalmente espancado, fui jogado de cara na lama, fui sufocado, açoitado, gritava por perdão, nenhuma alma me escutava, as pessoas ali queriam me ver sofrer. Perdi o meu poder, o meu orgulho, implorei, chorei, ajoelhei, mas, aqueles caras não estavam a fim de me ouvir, se sentiam orgulhosos por me ter em suas mãos, gritavam para o espaço que tinham se vingando.
Colocaram uma corda em meu pescoço, e me arrastaram para todos os lados, eu engoli muita lama, até que pararam, não conseguia ver muito bem, a dor era muita, estava todo cagado, mijado e não tinha mais lágrimas para chorar, parecia uma criança sem a sua mamadeira. Sempre fui mimado, hoje estou no escuro sozinho, não tem uma pessoa que me venha mimar ou puxar o meu saco.
Os gritos param! O silêncio! Esfreguei os meus olhos! Consegui ver! Era uma luz fosca, era uma muralha? Uma cidade? Como poderia ter uma aqui? Não conseguia entender nada, nada. Eu estava saindo de casa, estava no meu carro e do nada eu estava ali, no escuro me fodendo todo. Que porra é essa? O portão abriu! Fez um barulho ensurdecedor, saíram lá de dentro um povo bem estranho, não eram humanos, eram figuras bizarras, carrancudas, bravas e percebi que maldosas, fui entregue a eles, e as pessoas que me carregavam falaram. Foi feito! A morte cobra a sua vida em vida. Não tinha a mínima noção do que eles falaram.
As duas figuras não humanas me pegaram pelos braços e levaram para dentro da cidade, por onde eu fui passando tinha gemido, tinha dor, era desesperante, o que ia acontecer? Véio eu literalmente estava na merda. Deixaram o meu corpo sem força em um pátio, todo mundo passava e mijavam em mim, me chutava, eu não tinha mais força, só sentia dor e mais dor, os meus gemidos ecoavam entre as muralhas, parecias dias que estava jogado ali sem água, pão, sem nada. Foi quando as duas criaturas voltaram, me pegaram e levaram, achei que o suplício tinha terminado, mas não. Deixaram o meu corpo quebrado em um quarto, e um senhor se aproximou de mim, disse ele, não me esqueço. Tu gostava de torturar, hoje tu vai realmente aprender a torturar. Colocou a mão em minha cabeça e tudo veio com clareza. Eu tinha sido executado. Eu morri na frente da minha mulher e filha, eu o matador, eu o torturador, a autoridade da Obam tinha sido executado, eu não valia bosta nenhuma, tinha sido justiçado como dizem os que eu torturava.
Agora tudo faz sentido, os rostos daqueles que me trouxeram aqui me fez sentido, eu conhecia eles, eu torturei e matei. Comecei a perceber o que eu era e como trazia dor, como gostava de poder fazer aquilo, ter poder sobre a vida e a morte, poder sobre a dor, poder sobre o sexo, eu decidia se queria ou não. Quem morria ou não.
Agora sou eu sentado em uma cadeira, mas ela não é do dragão, ela tem pontas, e os meus algozes são todos estranhos, são figuras esquisitas, parecem bichos. Toda hora eles me falam que eu vou ser um bom torturador, por isso que me torturam, para eu aprender.
Francisco Maia. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Haikai.

Haikai.
Eu êxito, finjo que não. Sou dominado, só que não.
Morro todo dia, e todo dia nasço.
Sou livre na medida em que me deixam,
Essa coleira não é minha! É sua! Pense!

Francisco Maia. 

III Séculos de Vida.


III Séculos de Vida.

Vim de África, Ogum, Oya, morri no novo mundo,
Mudei de alma, e orei para São Jorge e Santa Bárbara,
Deixei o meu mundo, dancei no terreiro, chorei na senzala.
E doei sangue no pelourinho, soei chibatadas.

Corri um pedacinho de terra, parei em Palmares,
Lá fomos todos iguais, morri por Zumbi e Dandara. Morri pela liberdade!
Caminhei em alma crua nos sertões, pés machucados.
Extraí ouro nas feridas abertas no veio da terra, feri minhas mãos.
Lombo, ardeu, ardeu, fui para Piratininga.

Colhi café, raspei terra, andei, andei, era tudo do sinhozinho,
Apanhei de vara de marmelo, morri novamente, sofri, doeu, sou negro.

Meus olhos abriram, renasci. O soluço, o choro, a morte não tinha me levado,
A vida veio, eu nego com a liberdade Áurea, dois artigos e nenhuma justiça social.
Subi o morro, correram com a gente dos cortiços, não me deram emprego, não sei ler.

300 anos de escravidão, muitas mortes e muitos nascimentos, muita dor.
130 anos do fim da escravidão, não sinto a liberdade, vivo sem muitos direitos,
Os quais são privados, ainda são reclamados, ainda luto por liberdade, justiça e igualdade.

O meu grito não é mais um gemido amordaçado, o meu grito é a revolta.
O meu medo não é da morte, o meu medo é da injustiça.
Não nasci no novo mundo, eu renasci no Brasil.

Eu cresci reencarnando, hoje sou forte, sou negro, sou brasileiro.
Não vim porque quis, mas estou aqui para ficar.
Me respeita, pois aqui também é meu lar.


Francisco Maia.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

Despertado.

Despertado.


O poder é do povo, só que o povo não sabe disso!
Pena que o povo ficou feliz e não triste em ser divido!
O povo tem parcelas para pagar, tem carro novo, casa!
Pena que o povo não se acha povo.

Sinto falta do povo, dele decidir sem receber!
Sei que o povo está alinhado, não é sua vontade.
Sinto que o povo, cresceu, achou e perdeu.
Sei que meu povo descaminhou-se por sentir que não é do povo.

Meu povo está ébrio! Encantado com a lua cheia.
 Adormecido com o remédio instantâneo da solução,
Soluçando com o pão seco e o vinho barato da cesta de natal.

Ah! Quando o meu povo perceber que não é médio,
Oh! Quando o meu povo perceber que é grande.
Olha você! Vamos te derrubar, não vai demorar.

Francisco Maia.



quarta-feira, 14 de junho de 2017

Poética.

Poética.

Pensei que a poesia tinha morrido.
Achei que não tinha mais como!
Poemas viraram dialética e dialética poesia.
Morri, e fui para outro lado, cordel cantei.

Sambei na minha lápide e o espirito não deixava o corpo,
Alma cinza por desencanar em maniqueísmo.
Vermelho ou azul, a morte não tem cor!
Interesses antagônicos que separa o morto pobre.

Apodreceu o sangue vermelho e enrugou a veia azul!
O verme pinicou o osso amarelado que logo é pó,
Tremulou a chama da vela, deixando o fumo na gaveta branca.

A lua alva iluminava a minha alma perdida,
Balbucie um samba, entoei uma poesia. Não morreu comigo!
Ela apenas nasceu no meu simples existencialismo.

Francisco Maia.